Bidão era um menino infeliz. Incompreendido, brigava todos os dias na rua. Encrencas no futebol, culpa do Bidão; trambique na mãe-da-rua, era ele; bombinha em buraco de muro, também; pipa desalinhada, batata!
Bidão soltava pipa com Gustão. Era a única diversão daquele magrela com a boca cheia de dentes. Gustão, que morreu de tiro depois da adolescência, compreendia Bidão. Era seu amigo, fiel escudeiro, parceiro de tardes vagabundas.
Mas o restante da turma não gostava de Bidão. Alguns tinham até palpite: olhar perdido, cabelo despenteado, camisetas amareladas, unhas não aparadas, Bidão era meio pinel.
E as brigas, uma a cada hora, reforçavam a suspeita. Todo mundo se dava bem. Tirando alguns arranca-rabos, havia paz. Mas com ele por perto, confusão.
Comigo, no entanto, não colava. Apesar de reconhecer os desatinos de Bidão, não conseguia enxergar nele um garoto ruim. Era o jeitão. Transtornado pela rotina difícil em casa, carente de pai, carente de mãe, complexado. Sabe-se lá. Pra mim, Bidão era inocente de todas as acusações.
O tempo passou. Hoje, ninguém mais sabe dele.
Há quem diga que foi embora pra Sertanópolis. Outros sustentam que Bidão montou uma oficina mecânica. Também orbita uma tese segundo a qual ele nunca existiu. Era fruto da imaginação da turma, um personagem dos nossos encontros vespertinos na Rua Serra do Cantú.
Outro dia, um rapaz que trabalha na TV disse que conheceu um certo Bidão lá no Jardim Bandeirantes. E as descrições bateram: chutava com os dois pés, tinha cabelos sujos e, de vez em sempre, parava sozinho e olhava para o nada durante minutos sem dar pistas sobre os pensamentos.
Esse cara é o Bidão. Só pode ser!
Tomara que Bidão ainda exista. Tomara que tenha montado uma padaria. Nela, Bidão poderia muito bem produzir sonhos.
Estaria fazendo o que gosta. Estaria feliz. Finalmente feliz!
Publicado em 19 de junho de 2008 às 19:35 por mrocha