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Archive for June of 2008

Bidão

June 19, 2008
Bidão era um menino infeliz. Incompreendido, brigava todos os dias na rua. Encrencas no futebol, culpa do Bidão; trambique na mãe-da-rua, era ele; bombinha em buraco de muro, também; pipa desalinhada, batata!

Bidão soltava pipa com Gustão. Era a única diversão daquele magrela com a boca cheia de dentes. Gustão, que morreu de tiro depois da adolescência, compreendia Bidão. Era seu amigo, fiel escudeiro, parceiro de tardes vagabundas.

Mas o restante da turma não gostava de Bidão. Alguns tinham até palpite: olhar perdido, cabelo despenteado, camisetas amareladas, unhas não aparadas, Bidão era meio pinel.

E as brigas, uma a cada hora, reforçavam a suspeita. Todo mundo se dava bem. Tirando alguns arranca-rabos, havia paz. Mas com ele por perto, confusão.

Comigo, no entanto, não colava. Apesar de reconhecer os desatinos de Bidão, não conseguia enxergar nele um garoto ruim. Era o jeitão. Transtornado pela rotina difícil em casa, carente de pai, carente de mãe, complexado. Sabe-se lá. Pra mim, Bidão era inocente de todas as acusações.

O tempo passou. Hoje, ninguém mais sabe dele.

Há quem diga que foi embora pra Sertanópolis. Outros sustentam que Bidão montou uma oficina mecânica. Também orbita uma tese segundo a qual ele nunca existiu. Era fruto da imaginação da turma, um personagem dos nossos encontros vespertinos na Rua Serra do Cantú.

Outro dia, um rapaz que trabalha na TV disse que conheceu um certo Bidão lá no Jardim Bandeirantes. E as descrições bateram: chutava com os dois pés, tinha cabelos sujos e, de vez em sempre, parava sozinho e olhava para o nada durante minutos sem dar pistas sobre os pensamentos.

Esse cara é o Bidão. Só pode ser!

Tomara que Bidão ainda exista. Tomara que tenha montado uma padaria. Nela, Bidão poderia muito bem produzir sonhos.

Estaria fazendo o que gosta. Estaria feliz. Finalmente feliz!


Aconteceu

June 04, 2008
Vocês não vão acreditar no que vou dizer! Não vão!
Imaginem vocês que a minha vida voltou a ser aquela. É, aquela de antes.
Não sou mais um homem casado.

O capítulo "Casado e bem" chegou ao fim. Na verdade, este capítulo foi uma deslavada mentira que morreu de nove meses. (verdade...mentira...balance rapidamente o polegar e o indicador).

Pois é, minha gente. Agora, é deixar o sol queimar a marca da aliança. Com o tempo, a marca desaparece. Essa e outras, é o que estão me dizendo.
Duro é acreditar. Porque o peito, ameaçador, voltou a disparar chantagens das mais assombrosas. A angústia desembarcou neste aeroporto caótico que é a minha existência. E, ao que parece, a conexão vai atrasar.

E enquanto a angústia não vai embora, fica instalada em minha cachola a tristeza cujo tamanho eu não tenho talento para descrever. Devastadoras são as sensações de impotência diante da dor consolidada.

Voltou a vontade de dormir 23 horas por dia. Está estabelecido aquele momento em que a crise parece ter chegado pra ficar. Haja lágrimas e desamparo.

Não, não dá pra pensar nos benefícios da liberdade. Passeios, noitadas, farra, descompromisso. Já havia perdido a sede por isso tudo, acreditem.

Por enquanto, amigos, vocês terão que esperar. Terão que me ouvir. Me aguentar.
Que as doses de Pondera se encarreguem do resto. E que não demorem a fazer efeito.

Será preciso refazer o penteado, juntar os cacos e trocá-los por um sorriso qualquer.
Mas eu ainda não o encontrei.



Tentativa: "Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer" - Eleanor Roosevelt