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Archive for November of 2006

Cena de Crime

November 14, 2006

Três da tarde de quarta-feira passada. Entre ruídos de "QSL", "QAP", "Nono Primo Nono", "Operante" há algo mais no rádio que capta a frequência da polícia e que diz tudo aos ouvidos de Alceu, o cinegrafista.

Alceu comunica a ocorrência aos demais integrantes da equipe. Diz o rádio que há um morto na Vila Romana, atrás do Lindóia, próximo à esquina da Casa do Chapéu, metros antes do entroncamento onde o vento faz a curva, Londrina.

Em pouco mais de sete minutos, a equipe percorre os dezenove quilômetros que separam o centro da cidade do local de morte.

Lá, já estavam  Marlos Amargo e outros famosos da crônica policial. Todos à porta da moradia popular.

A casa de tijolos sem reboco, de chão de cimento e de cortinas transformadas em paredes guarda a cena do crime. Mais especificamente a sala.

Na sala, uma estante cheia de canecas de oktoberfests várias, cheia de fotografias de uma só família. Na mesma estante, ainda há espaço para uma miniatura de avião da TAM.  

Nesta sala,  está o jovem cadáver jovem. Sem documentos. Dezessete anos no máximo. 

Diante da televisão ligada no Video Show, o defunto, com o tronco inclinado para a esquerda de quem vai, olha a sala de atravessado. A expressão revela  pavor.

Foram  sete os  tiros, disparados a menos de dois metros de distância.

Mas o defunto nunca morou ali, nem vivo nem morto. Não é conhecido do dono da casa. Nem da dona, que teria  corrido do local quando percebeu a entrada do jovem que enxergou ali,  naquela residência, a chance de escapar da perseguição iniciada ainda nas ruas do bairro.

Foi exatamente esta a versão contada por populares e pela mulher. O jovem, perseguido, fugiu pelas ruas do conjunto habitacional. Após vencer terrenos baldios e muito barro, entrou na primeira porta aberta que encontrou. Seguido de perto pelo algoz, acabou sendo alvejado na sala.

Mas a polícia não acredita nesta versão. Exames preliminares não constataram sinais de terra no tênis da marca Rainha  novinho em folha. Nem resíduos da mesma terra no corredor que separa cozinha de sala e pelo qual a vítima teria passado em disparada.

Os índícios apontam  que o jovem pode ter  recebido os tiros já sentado no surrado sofá e não de pé, ao chegar à sala, último refúgio da eventual rota de  fuga. E mais: marcas de queimaduras nos braços revelam que ele pode ter tentado se proteger dos tiros colocando as mãos diante do rosto. Há tiros no rosto. 

Tudo somado, a tese de perseguição e morte é aos poucos desconstruída pelos homens da investigação. Eles, os homens da investigação, acreditam que o rapaz tenha sido surpreendido na sala, enquanto via a programação vespertina das televisões.  

O dono da casa, pedreiro, negro,  R$400 por mês,  será intimado e ouvido novamente. Da mulher dele, desempregada, negra,  única testemunha ocular,  também serão exigidas novas explicações.

Além do nome do assassino, a polícia quer saber por que o jovem não morreu na rua, como todos os outros, todos os dias. E por que estava ali, naquela sala, uma vez que os donos do imóvel garantem que nunca tiveram com o morto - mesmo quando ele estava vivo -  qualquer relação de intimidade.

Enquanto Marlos Amargo grava mais uma "exclusiva", fogos de artifício são disparados na rua de cima. Dois minutos de estampidos. Agora não são balas. São apenas rojões.  

E por que tantos jovens morrem e vão continuar morrendo? A polícia vai acabar descobrindo.