A estudante de biologia Priscila me olhava o tempo todo naquela noite já bem fria de 15 de maio de 1997. Mas eu ainda não sabia que Priscila se chamava Priscila. Nem sabia que estudava biologia.
Priscila bebia algo parecido com vodka. Talvez fosse cachaça. E tinha olhos fechando. Mesmo assim, parecia procurar por alguém.
Eu a via todos os dias. Mas nunca no Beco.
Dentro do 304, a caminho do CCB, o jaleco branco e a cara de cansada davam entender que Priscila, que parecia ter vindo de Tupã, gostava mesmo era do estudo integral. No ônibus, cochilava não como quem vara madrugadas bebendo. A canseira tinha mais jeito de noite varada a café e fotocópias mal tiradas.
Mas encontrei Priscila no Beco. E lá, ela era ainda mais linda que no 304. E descobri no rosto de Priscila muita sofisticação. E atentei para alguns detalhes. O cabelo, bem curtinho e preto! E ela também tinha uns dentes bem lindões e brancos. E tinha sombrancelhas na medida certa. Nem finas nem grossas. Sombrancelhas honestas, como certamente diria o Rubão.
Não havia ninguém comigo naquela noite. Nem Rubão, nem Fernandão, nem Vagão, nem Lilsão. Eu havia mentido para minha namorada. “Vou dormir hoje. Estou com a gastrite daquele jeito”. Não estava. Queria ir ao Beco. E só. E fui.
Depois de umas quatro ou nove, fui até o balcão falar com Priscila. Fui mesmo! Disse a ela qualquer besteira e ela sorriu. Eu disse que estava de porre. E ela disse que já havia percebido a minha curiosidade. E disse também que já havia me flagrado diversas vezes cuidando de seus cochilos dentro do ônibus.
-Eu faço biologia.
-É? Eu estudo no CECA. Faço jornalismo.
Conversamos muito, sobre a biologia e o jornalismo, sobre os bares e as mulheres e homens que saem desacompanhados. Tratamos de sérias questões. E da rotina. Revelamos até os nossos desgostos e frustrações. E tomamos mais umas sete juntos.
E depois ela me disse que seu nome era Priscila. E que queria o meu telefone. E me deu o telefone dela.
E eu fiquei com vontade de dizer pra ela o seguinte:
“Vou levando assim
que o acaso é amigo
do meu coração
quando fala comigo
quando eu sei ouvir”
...mas eu ainda não conhecia Los Hermanos. E por isso, nos falamos dias depois. E foi muito bom, de novo!!