“Eu fui a Lapa e perdi a viagem. Aquela tal malandragem não existe mais”. A frase do Chico é corretíssima.
Mas na Lapa existe o Asa Branca, onde a malandragem que ficou cai no forró que se transforma em baile funk às 3 da manhã. E os Arcos da Lapa estão lá, observando tudo o que acontece e o que não acontece.
O Rio de Janeiro é a colônia de férias do mundo. E na viagem que terminou ontem, descobri que é possível ser feliz por completo. Pelo menos por uns dias. Desde que você escolha bem a cidade e os companheiros.
O Rio é a prova de que a beleza de um lugar faz bem para a alma. “Tô falando de alma, mala!”, diria um dos personagens criados por Julio Tanga.
Estou emocionado com o que vi e conheci. E a cada instante, sentia vontade de ligar para os amigos que não foram. Contar onde estava, fazer inveja.
Fazer inveja por ter tomado chopp no Bar Luis, atrás da Praça Tiradentes.
Lá, em 1942, Ari Barroso subiu na mesa para conter uma revolta de estudantes equivocados. E o chopp no Bar Luis é servido por Oliveira, um dos mais dignos representantes da docilidade nacional. Oliveira poderia muito bem ser tratado de Oliveira, Doutor em classe, estilo e educação.
E falando em chopp, que tal tomar onze deles no Bar Getúlio, em frente ao Palácio do Catete? E lá, conhecer o Batista, outro garçom guerreiro. E também bater um papo rápido com Severino, o pernambucando poliglota.
Conhecer o Rio é, no dia seguinte à bebedeira, visitar o Museu da República, as coisas de Vargas. Fotos, anotações, discursos, móveis. E por fim, se arrepiar dentro do quarto fatal, de onde um estampido de tiro estremeceu a história recente.
Estou falando de uma cidade onde, sem querer, a gente estaciona o carro na Rua Nascimento Silva, perto do número 107. Onde se cruza a Rua Tonelero também sem querer. De uma cidade onde dirigir é um desafio segundo a segundo.
Não vou falar da beleza das paisagens vistas do Pão de Açucar, das praias de Ipanema, Copacabana, da Barra da Tijuca, do Flamengo, da Lagoa, do Leblon. Não vou dizer nada. Tentar descrever tanta inspiração de Deus seria muita pretensão pra tão pouco talento literário.
E também não vou falar da violência. Nem dos morros, do tráfico de drogas, do sofrimento de um povo que aprendeu a se virar em meio a tanta dificuldade.
Passamos dentro dos túneis que vivem fechados pelos traficantes. Passamos sim! Cruzamos um mundo chamado Rocinha, a caminho da Barra. Violenta, impressionante, poética, me causou espanto. Mas tive mais medo da Rocinha aqui, em frente à TV, do que lá, na cara do gol.
Meu medo ficou pra trás. Mais precisamente duas noites antes, naquele chopp de frente pro mar em Copacabana, perto do hotel mais charmoso do país. Aliás, alguém arriscaria dizer qual o valor da diária do Copacabana Palace? “Sete mil reais”, diria um outro personagem que nasceu na viagem.
Foram quatro dias desses que revelam novas perspectivas. Eu, o Tanga, o Lúcio, o Grota e aquelas outras pessoas que foram com a gente (vocês não sentiram a falta delas aqui?) nos divertimos demais. É preciso planejar a volta.
E quando surgirem comentários sobre os pontos negativos do Rio de Janeiro que eu passei a amar, eu vou ouvir tranquilo. Mas não direi nada.
Vou só lembrar. Da viagem, dos sorrisos, dos garçons, do sotaque, da gentileza, da brasilidade, desse país fodido, apesar de tudo!
Prefiro assim.
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Rodrigues, o Nelson:
O carioca é um ser encantado. No Rio, dois sujeitos que nunca se viram tornam-se como que súbitos amigos de infância e caem nos braços um do outro, aos soluços. É a única cidade em que pode nascer, entre dois desconhecidos, uma intimidade fulminante.
(in Flor de Obsessão org Ruy Castro)
Publicado em 18 de fevereiro de 2005 às 12:43 por mrocha