GaStRiTe CoNsTaNtE

O jornal de papel

Um dia vou trabalhar em um jornal de papel. Num desses em que as letrinhas são impressas, pretas e minúsculas. Elas, as letras, sujarão minhas mãos quando eu ler o jornal de papel.

Terei amigos mais inteligentes. E terei editorias várias. E tagarelarei que sou repórter do jornal Tal.

No jornal de papel vou dizer que ajudei a fechar o jornal de hoje. E o jornal de hoje, todos saberão, será o de ontem. E eu não estarei nem aí!!!

Um dia vou trabalhar em um jornal de papel. Nesses onde os peixes são embrulhados. E onde se embrulham também pessoas que fazem cara de peixe morto.

Ficarei mais próximo dos articulistas e das articulações. E do Caderno de Classificados. E da coluna dos leitores assíduos.

No jornal de papel serão mais frequentes as tentativas criativas. E mais possíveis os leads lendários. Vou passar a ler Cultura por Esporte. Vou fazer Política na Primeira Página.

Um dia vou trabalhar em um jornal de papel. Só eles comportam as crônicas neuróticas e neuroses crônicas. E também comportam trocadilhos safados como os da linha acima.

Aliás, serei mais disciplinado com as palavras. E menos disciplinado com as gravatas. Vou abolir a passagem, o off, o stand-up, a nota-pé. E, acima de tudo, darei fim à maquiagem que me impede de ser sócio remido do Clube Irmão Caminhoneiro Shell.

No jornal de papel vou abrir o Caderno Dois de uma só vez. E olhar de cabo a rabo. E vou fingir que entendo tudo. Afinal, serei repórter do Jornal de Papel.

Um dia vou trabalhar em um jornal de papel. E vou querer todos os plantões de domingo. Serão plantões xaropões de um jornal que não circulará na segunda-feira.

Um dia as redações dos jornais de papel terão que me aceitar. E junto comigo, a pobreza do meu texto. A indigência de minha alma. A ingenuidade que me ronda. A mediocridade que me assola.

Terão que me aceitar assim mesmo, sem saber quando é hora de ponto e quando é hora de vírgula. E quando é hora de fechar a edição.

Um dia vou trabalhar em um jornal de papel. Vou escrever uma história sem cabimento. Uma história que começará com “E”. E nesse mesmo dia serei reponsável por uma página de diagramação impossível.

.....xxxxx.....

Rodrigues, o Nelson:
Entre a mediocridade e a insânia (com uma orla de gênio), prefiro a insânia

(in Flor de Obsessão org Ruy Castro)

Publicado em 26 de janeiro de 2005 às 01:50 por mrocha

Comentários

    • O legal de trabalhar num “jornal de papel” é poder usar camiseta e tênis, barba por fazer e olheiras.
    • por Renon, esperando uma ilha
    • 26.Jan.2005 às 09:56 - Permalink - Reportar
    Renon, esperando uma ilha
  1. deise warken
  2. Patty deslogada
    • E nesse dia a TV do Paraná vai perder um de seus melhores repórteres.
      Um grande Beijo
    • por fefe-Pvi
    • 27.Jan.2005 às 08:13 - Permalink - Reportar
    fefe-Pvi
    • Mediocridade cabe em qualquer lugar. Não fique ansioso por achar espaço em um jornal de papel. TV também tem beira para pessoas medíocres.
    • por jornalista de jornal de papel
    • 01.Fev.2005 às 10:05 - Permalink - Reportar
    jornalista de jornal de papel
    • noachei bem legal seu trabalho
    • por arianne
    • 06.Out.2006 às 11:21 - Permalink - Reportar
    arianne
    • massaaa.. ^^

      muitoh interessante... (3

      nhah.. continue cm estas espectativas xD

      Bjus
    • por Any
    • 29.Out.2007 às 19:03 - Permalink - Reportar
    Any
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