-O que ele fez foi muito grave! Você deveria ter formalizado o ocorrido muito antes! Demiti sem pestanejar. E a fechadura da sua porta, troque! O condomínio paga. Questão de segurança. Não se preocupe!
Foi assim, com exclamações a cada frase que Nelson, o síndico careca do Edifício Residencial Amaralina, me avisou de suas providências.
Não poderia ser diferente. João, o porteiro entrão, foi demitido .
Depois de ter contratado um chaveiro para estuprar minha fechadura; depois de levar para dentro do apartamento onde moro uma “sobrinha” suspeita, que tomava cerveja amparada por um guardanapo; depois de se beneficiar do meu receio em tomar providências; depois de dizer que “isso nunca mais vai acontecer”; depois de tudo, João não está mais no quadro de funcionários do condomínio.
João, o porteiro, agora está na fila dos desempregados. É mais um atirado à terrível tarefa diária de preencher dezenas de fichas. É mais um que pode vir a ser entrevistado pelas gerentes de RH, implacáveis.
E segundo Nelson, o síndico careca, foi justa causa. “Justíssima, justíssima!”. Nelson tem um filho que joga xadrez. E como o filho, Nelson pensa muito antes das decisões.
E falando em decisões, a minha, de relatar formalmente o acontecido, foi crucial na demissão de João. Não fosse por um e-mail enviado a Nelson, o síndico careca, João continuaria empregado. Não fosse por mim, João permaneceria assalariado.
Será que fiz mal em contar tudo para Nelson, o síndico careca? Será que João não merecia uma segunda chance? Será que João cometera pecado tão grave? Será que João não iria mesmo cumprir a promessa de que “isso nunca mais vai acontecer”?.
Nelson, o síndico careca, foi definitivo!
-Você fez bem! Fez muito bem! O homem estava enfiado em sua sala. E com uma mulher. Imperdoável...imperdoável!! Fique tranquilo. Um homem como João não merece compaixão! É a sua casa...a sua sala. Imperdoável!
E Nelson, o síndico careca, já avisou. A contratação de um substituto para João está em fase final. Nelson já fez várias entrevistas, analisou currículos, checou referências, consultou o Serasa. Tudo.
-Já tenho um nome. Pessoa decente, pai de família, veste camisas de manga longa. . E o melhor você não sabe, Marcelo! É dos nossos!
-Como assim? - pergunto
-Ora, é dos nossos! Chama-se Honorato. E torce pro Santos! Contrato ou não contrato??
Contrata Nelson. Contrata o Honorato!
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Rodrigues, o Nelson:
O “homem de bem” é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu.
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Publicado em 30 de setembro de 2004 às 01:24 por mrocha