Quinta-feira, 9 de setembro, no início da noite, recebi a notícia de que Humberto morreu.
Humberto comandava uma van que, nas madrugadas ou às 12h, nos colocava em linha direta com Londrina ou com o Paraná ou com o mundo, dependendo da importância da notícia ou da Christina Matos, a nossa chefe.
Humberto subiu num poste, tomou um choque, caiu, se machucou e morreu. Bateu com a cabeça no chão e, segundo os médicos, não resistiu.
Humberto morreu no mesmo dia em que Edval , outro talento, soube que seria pai.
Que me desculpe o Edval, mas Humberto foi a principal notícia do dia. A morte fez ciranda com a surpresa e pegou todo mundo de.
Não que uma nova vida não seja boa nova.
Mas a ida do Humberto nos derrotou. Uma derrota absurda, que transforma o cotidiano em choque elétrico. Uma derrota estúpida, que transforma o homem de uma tarde em capítulo final.
Humberto espantava pombas no calçadão. Arrumava minhas gravatas. Me alertava sobre o tempo de todas as coisas e sobre o tempo de todas as notícias.
Humberto se irritava quando o repórter mexia no espelho da van pra se arrumar. Humberto era original. E, clichê dos clichês, Humberto não precisava de elogios. Alceu Nascimento diria:
-Humberto faz o seu. E pronto!
Ontem, trabalhando menos que ele, arrisquei um trote. Avistei Humberto na Concha Acústica sem um cinegrafista para a passagem de bloco.
-Onde está o Rubão? perguntei.
-Chegou aqui e sumiu!
-Chama o cara, não tá vendo o incêndio no Centro Comercial, Humberto?
-Incêndio?
-É!! Filma aí!!
Enquanto Humberto procurava o incêndio, eu e Alceu nos aproximamos. Desmentimos o trote. E o alívio brotou de dentro de uma van.
Fizemos como todos os dias. Um trote, uma palhaçada, uma brincadeira. Deu certo.
Mas de agora em diante não dará mais. Nos próximos links, não teremos a compreensão delicada do Humberto. Nem a malandragem corriqueira do Alceu. Nem a alegria doce do Walter. Nem a coragem punk do Bonomini. Nem a filososfia de almanaque do Beraldi. Nem a disposição ranheta do Rubão.
De agora em diante, vai faltar, todos os dias, um sorriso perdido e flácido, que abandonou a van de uma hora pra outra.
Daqui a pouco, ao meio-dia, mais um link será armado, mais um sinal será afinado, mais uma passagem de bloco será vendida, mais uma besteira (ou notícia de última hora) será dita.
Mas o Humberto não estará lá. O Humberto se foi.
E se ele se foi, teremos, enfim, notícias frescas de um lugar.
De um lugar de onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, mandaremos notícias.
E a frase acima é mais um clichê. Quem dera fosse o clichê de uma Nova Vida...não é!
Salve Humberto! Juro que tomarei uma cerveja, acenderei uma vela e farei uma homenagem, qualquer uma, pra você.
Até daqui a pouco!!
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Rodrigues, o Nelson:
A morte é um grande despertar
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Publicado em 10 de setembro de 2004 às 04:31 por mrocha