-O que ele fez foi muito grave! Você deveria ter formalizado o ocorrido muito antes! Demiti sem pestanejar. E a fechadura da sua porta, troque! O condomínio paga. Questão de segurança. Não se preocupe!
Foi assim, com exclamações a cada frase que Nelson, o síndico careca do Edifício Residencial Amaralina, me avisou de suas providências.
Não poderia ser diferente. João, o porteiro entrão, foi demitido .
Depois de ter contratado um chaveiro para estuprar minha fechadura; depois de levar para dentro do apartamento onde moro uma “sobrinha” suspeita, que tomava cerveja amparada por um guardanapo; depois de se beneficiar do meu receio em tomar providências; depois de dizer que “isso nunca mais vai acontecer”; depois de tudo, João não está mais no quadro de funcionários do condomínio.
João, o porteiro, agora está na fila dos desempregados. É mais um atirado à terrível tarefa diária de preencher dezenas de fichas. É mais um que pode vir a ser entrevistado pelas gerentes de RH, implacáveis.
E segundo Nelson, o síndico careca, foi justa causa. “Justíssima, justíssima!”. Nelson tem um filho que joga xadrez. E como o filho, Nelson pensa muito antes das decisões.
E falando em decisões, a minha, de relatar formalmente o acontecido, foi crucial na demissão de João. Não fosse por um e-mail enviado a Nelson, o síndico careca, João continuaria empregado. Não fosse por mim, João permaneceria assalariado.
Será que fiz mal em contar tudo para Nelson, o síndico careca? Será que João não merecia uma segunda chance? Será que João cometera pecado tão grave? Será que João não iria mesmo cumprir a promessa de que “isso nunca mais vai acontecer”?.
Nelson, o síndico careca, foi definitivo!
-Você fez bem! Fez muito bem! O homem estava enfiado em sua sala. E com uma mulher. Imperdoável...imperdoável!! Fique tranquilo. Um homem como João não merece compaixão! É a sua casa...a sua sala. Imperdoável!
E Nelson, o síndico careca, já avisou. A contratação de um substituto para João está em fase final. Nelson já fez várias entrevistas, analisou currículos, checou referências, consultou o Serasa. Tudo.
-Já tenho um nome. Pessoa decente, pai de família, veste camisas de manga longa. . E o melhor você não sabe, Marcelo! É dos nossos!
-Como assim? - pergunto
-Ora, é dos nossos! Chama-se Honorato. E torce pro Santos! Contrato ou não contrato??
Contrata Nelson. Contrata o Honorato!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
O “homem de bem” é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu.
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Archive for September of 2004
Porteiros e guardanapos - segunda e última parte)
September 30, 2004O João
September 26, 2004
O João tem cócegas demais! E quando tocado, sorri automaticamente. Felicidade em pessoa, o João está bem. E é lindo. É o mais lindo João que conheço.
Ontem, João foi lá na casa da minha mãe. Estava de bermuda verde, camiseta clara e sandálias. Conseguiu salvar minha tarde. Me emprestou um sorriso delicioso. E correu com a minha dor de cabeça.
Brincou com carrinhos de plástico. Não desgrudou de uma bolinha de tênis. Tomou posse da grama e das plantas no jardim. Jogou fora tudo o que estava dentro da estante. E sorriu de meio em meio minuto.
João também atendeu a uma ligação no meu celular. “Aiô! Aiô!”. João fala bem. Tem boa dicção e personalidade forte. Com o João, Não é Não!
Mas o melhor da tarde foram as brincadeiras que João me ensinou. Na primeira, ele corria se esconder atrás da porta da sala. Eu esperava. Em seguida o encontrava fácil. Gargalhada.
Na segunda brincadeira, João deitou de costas num tapete do tamanho dele. Peguei o tapete pelas pontas e arrastei o malandro pela casa toda. Farra geral.
Depois dessa, João foi pra casa dele descansar.
Descansa filhão. A gente se vê. Claro!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Olhamos tão pouco as pessoas amadas. Quantas palavras calei com pudor de ser meigo, vergonha de parecer piegas?
Ontem, João foi lá na casa da minha mãe. Estava de bermuda verde, camiseta clara e sandálias. Conseguiu salvar minha tarde. Me emprestou um sorriso delicioso. E correu com a minha dor de cabeça.
Brincou com carrinhos de plástico. Não desgrudou de uma bolinha de tênis. Tomou posse da grama e das plantas no jardim. Jogou fora tudo o que estava dentro da estante. E sorriu de meio em meio minuto.
João também atendeu a uma ligação no meu celular. “Aiô! Aiô!”. João fala bem. Tem boa dicção e personalidade forte. Com o João, Não é Não!
Mas o melhor da tarde foram as brincadeiras que João me ensinou. Na primeira, ele corria se esconder atrás da porta da sala. Eu esperava. Em seguida o encontrava fácil. Gargalhada.
Na segunda brincadeira, João deitou de costas num tapete do tamanho dele. Peguei o tapete pelas pontas e arrastei o malandro pela casa toda. Farra geral.
Depois dessa, João foi pra casa dele descansar.
Descansa filhão. A gente se vê. Claro!
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Rodrigues, o Nelson:
Não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Olhamos tão pouco as pessoas amadas. Quantas palavras calei com pudor de ser meigo, vergonha de parecer piegas?
Mais tempo
September 23, 2004
Saí pra comer peixe cru no Madalena. E meu jantar simplório se transformou em vitória nas penalidades. O Santos vai em frente. O Flamengo fica.
Mas a minha noite, que começou às 20h30, em parceria quente com uma jovem Figuraça, estava só começando.
Depois da jovem veio a porção de tilápia. E depois, fui a um bar pretensioso e chato. E lá não voltarei. Era a tal Quarta Cubana. Tomei algumas, dancei um pouco. Vi Janaína Ávila, Fabiola Vicençoni, vi etcétera, vi tal.
E ainda era cedo quando alguém que atende por Flávia Renata, minha amiga de todas as cerimonias matrimoniais, sentenciou:
-Marcelo Rocha, você ama todas!
Amo todas nada, Flávia Re!! Nada, nada, nada!
Já amei várias, é verdade.
Amei a mulher de sorriso gigantesco e que agora é vizinha do Tony Blair. Amei a bióloga que me acolheu em Maringá. Amei a operadora de telemarketing que me cedeu um cartão de visitas. Amei a psicóloga que tinha canelas de modelo internacional. Amei uma neurótica chamada Viviane. Amei Juliana, a irmã do Rafael. Amei uma advogada chamada Desespero. Amei a repórter que anda triste.
Mas agora estou “numas” diferente. Tem uma moça mais jovem que eu. Se chama...Figuraça. Tem olhos insuportáveis. Tem boca doce. Tem sorriso de quem manda no pedaço. Tem pedaço de quem manda no sorriso. Tem o controle da situação. Tem saias curtas que devem ser mini.
Defintivamente, um amor que parece mais intenso que os outros.
Figuraça!
Ela é a Figuraça. Grande, pequena. Ingênua, perspicaz. Maluca, medicada. Tudo acontece muito depressa. E meu peito acelera tão depressa quanto.
Ah...tem um problema! Ela tem um namorado. Um detalhe que precisa ser levado em conta. Por isso, não vou morrer agora. Nem chorar. Nem arrancar os cabelos. Só vou dizer que amo. Pronto.
Figuraça, fique de olho em todas as coisas. Os intervalos comerciais acontecem voando. Vão e voltam.
Mas só os intervalos são assim. A vida real é um pouco mais real.
Preste atenção!
Agora vou dormir. Porque já passa das 2h da manhã. E quem manda no pedaço é a Primavera! A Primavera que veste saias curtas e tem a loucura de quem adora beijar na boca de hora em hora!
Estou um pouco sonolento. Não estou bêbado. E é sério. 51 perdões!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Ninguém ouve ninguém. O que nós chamamos de diálogo é, na maioria dos casos, um monólogo cuja resposta é outro monólogo. Por isso, a nossa vida é a busca inesperada de um ouvinte.
(in:Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Mas a minha noite, que começou às 20h30, em parceria quente com uma jovem Figuraça, estava só começando.
Depois da jovem veio a porção de tilápia. E depois, fui a um bar pretensioso e chato. E lá não voltarei. Era a tal Quarta Cubana. Tomei algumas, dancei um pouco. Vi Janaína Ávila, Fabiola Vicençoni, vi etcétera, vi tal.
E ainda era cedo quando alguém que atende por Flávia Renata, minha amiga de todas as cerimonias matrimoniais, sentenciou:
-Marcelo Rocha, você ama todas!
Amo todas nada, Flávia Re!! Nada, nada, nada!
Já amei várias, é verdade.
Amei a mulher de sorriso gigantesco e que agora é vizinha do Tony Blair. Amei a bióloga que me acolheu em Maringá. Amei a operadora de telemarketing que me cedeu um cartão de visitas. Amei a psicóloga que tinha canelas de modelo internacional. Amei uma neurótica chamada Viviane. Amei Juliana, a irmã do Rafael. Amei uma advogada chamada Desespero. Amei a repórter que anda triste.
Mas agora estou “numas” diferente. Tem uma moça mais jovem que eu. Se chama...Figuraça. Tem olhos insuportáveis. Tem boca doce. Tem sorriso de quem manda no pedaço. Tem pedaço de quem manda no sorriso. Tem o controle da situação. Tem saias curtas que devem ser mini.
Defintivamente, um amor que parece mais intenso que os outros.
Figuraça!
Ela é a Figuraça. Grande, pequena. Ingênua, perspicaz. Maluca, medicada. Tudo acontece muito depressa. E meu peito acelera tão depressa quanto.
Ah...tem um problema! Ela tem um namorado. Um detalhe que precisa ser levado em conta. Por isso, não vou morrer agora. Nem chorar. Nem arrancar os cabelos. Só vou dizer que amo. Pronto.
Figuraça, fique de olho em todas as coisas. Os intervalos comerciais acontecem voando. Vão e voltam.
Mas só os intervalos são assim. A vida real é um pouco mais real.
Preste atenção!
Agora vou dormir. Porque já passa das 2h da manhã. E quem manda no pedaço é a Primavera! A Primavera que veste saias curtas e tem a loucura de quem adora beijar na boca de hora em hora!
Estou um pouco sonolento. Não estou bêbado. E é sério. 51 perdões!
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Rodrigues, o Nelson:
Ninguém ouve ninguém. O que nós chamamos de diálogo é, na maioria dos casos, um monólogo cuja resposta é outro monólogo. Por isso, a nossa vida é a busca inesperada de um ouvinte.
(in:Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Já pensou?
September 17, 2004Já pensou se você estiver errando?
Já pensou se Priscila estiver certa?
Já pensou se o mundo se transformar em algo fácil?
Já pensou se você ouvisse Tom Jobim?
Já pensou se o vinil voltasse?
Já pensou se essa fosse a última canção?
Já pensou se você criasse coragem?
Já pensou se o telegrama ainda fosse moda?
Já pensou se a água fosse mineral?
Já pensou se a delícia fosse cremosa?
Já pensou se o comercial fosse real?
Já pensou se a briga fosse de foice?
Já pensou se eu tivesse coragem?
Já pensou se eu fosse do MST?
Já pensou se eu invadisse corações improdutivos?
Já pensou se não houvesse maquiagem?
Já pensou se o talento fosse regra?
Já pensou se a luta fosse armada?
Já pensou se o Fidel fosse Castro?
Já pensou se o Pinochet fosse Augusto?
Já pensou se a dita fosse dura?
Já pensou se eu fosse repórter?
Já pensou se eu comprasse uma briga?
Já pensou se eu respirasse por aparelhos?
Ei!! Já pensou se eu deixasse de te amar??
Nem pense nisso leitora fundamental!!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Toda coerência e, no mínimo, suspeita.
Vou tá bem amanhã!
September 16, 2004
Por duas vezes nesta semana fui para o estúdio apresentar o jornal. Antes, passei maquiagem. Base líquida, pó, corretivo nos olhos.
Em poucos segundos, consegui tirar do rosto as manchas de sol e de adolescência. Manchas que, sem os recursos da indústria dos cosméticos, são rapidamente notadas.
Foi fácil. Quem dera fosse sempre fácil me livrar do que não quero ver ou sentir.
Nem sempre dá.
Não consigo pegar a ansiedade, tirar do peito, botar na gaveta e jogar as chaves no Igapó. A angústia volta e meia me cerca. Inconveniente, me puxa pelo braço. Cruel, me assusta quando cochilo. Ameaçadora, diz que vai me pagar no portão de saída.
A indecisão então, nem me fale! Chega, encosta, dorme, acorda, ri, chora...e não vai embora. Em certos momentos, aparece para uma visita e permanece meses. E as minhas pernas ali, tremendo! As mãos suando, a cabeça estourando. A indecisão é implacável comigo.
O medo, esse já mora aqui em casa. Não me autoriza a nada. Gritar? Ele não deixa. Respirar? De vez em quando. Sorrir? Só no ano que vem. E de dois em dois minutos, o medo faz terror:
-Quietinho aí ou te dou uma surra tão grande que você não vai ter forças nem pra acender a luz do quarto escuro.
Tem também a covardia. Já implorei pra que ela vá embora...nada!
Ela finge que não ouve! Pior: de vez em quando se esconde, se finge de coragem. Aí tomo atitudes, anuncio mudanças radicais, digo o que penso, uma beleza...
Mas ela volta. E me corrompe as atitudes, revoga as mudanças anunciadas, censura meu pensamentos, uma desgraça...
A covardia é a minha companhia mais prejudicial. Ou me livro dela ou a ansiedade, a angústia, a indecisão e o medo vão acabar me impedindo de viver.
E se não vivo, perco tempo. Não amo, não relaxo, não conquisto, não ouso. E se não faço isso tudo, só fica a tristeza, que vai e volta, vai e volta...
Ah, um recado pra VOCÊ, leitora fundamental:
Não se preocupe. Como afirma o título do post, agora de manhã já estou melhor e trabalhando. Tô morrendo de saudades, tá? Me liga, agora, pra dizer:
-Oi, Má! Tô triste e com sono! Tudo bem?.
Figuraça!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Todo grande homem tem que ser, obviamente, obsessivo. Não sei se me entendem. Mas o “grande homem” é a soma de suas idéias fixas. São elas que o potencializam
(in:Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Em poucos segundos, consegui tirar do rosto as manchas de sol e de adolescência. Manchas que, sem os recursos da indústria dos cosméticos, são rapidamente notadas.
Foi fácil. Quem dera fosse sempre fácil me livrar do que não quero ver ou sentir.
Nem sempre dá.
Não consigo pegar a ansiedade, tirar do peito, botar na gaveta e jogar as chaves no Igapó. A angústia volta e meia me cerca. Inconveniente, me puxa pelo braço. Cruel, me assusta quando cochilo. Ameaçadora, diz que vai me pagar no portão de saída.
A indecisão então, nem me fale! Chega, encosta, dorme, acorda, ri, chora...e não vai embora. Em certos momentos, aparece para uma visita e permanece meses. E as minhas pernas ali, tremendo! As mãos suando, a cabeça estourando. A indecisão é implacável comigo.
O medo, esse já mora aqui em casa. Não me autoriza a nada. Gritar? Ele não deixa. Respirar? De vez em quando. Sorrir? Só no ano que vem. E de dois em dois minutos, o medo faz terror:
-Quietinho aí ou te dou uma surra tão grande que você não vai ter forças nem pra acender a luz do quarto escuro.
Tem também a covardia. Já implorei pra que ela vá embora...nada!
Ela finge que não ouve! Pior: de vez em quando se esconde, se finge de coragem. Aí tomo atitudes, anuncio mudanças radicais, digo o que penso, uma beleza...
Mas ela volta. E me corrompe as atitudes, revoga as mudanças anunciadas, censura meu pensamentos, uma desgraça...
A covardia é a minha companhia mais prejudicial. Ou me livro dela ou a ansiedade, a angústia, a indecisão e o medo vão acabar me impedindo de viver.
E se não vivo, perco tempo. Não amo, não relaxo, não conquisto, não ouso. E se não faço isso tudo, só fica a tristeza, que vai e volta, vai e volta...
Ah, um recado pra VOCÊ, leitora fundamental:
Não se preocupe. Como afirma o título do post, agora de manhã já estou melhor e trabalhando. Tô morrendo de saudades, tá? Me liga, agora, pra dizer:
-Oi, Má! Tô triste e com sono! Tudo bem?.
Figuraça!
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Rodrigues, o Nelson:
Todo grande homem tem que ser, obviamente, obsessivo. Não sei se me entendem. Mas o “grande homem” é a soma de suas idéias fixas. São elas que o potencializam
(in:Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Soco no estômago
September 12, 2004
Acabou...
E estou profundamente triste. O meu peito está doendo de novo!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Todos nós somos mais ou menos infelizes. As angústias estão crispadas dentro de nós como víboras.
E estou profundamente triste. O meu peito está doendo de novo!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Todos nós somos mais ou menos infelizes. As angústias estão crispadas dentro de nós como víboras.
O Humberto morreu
September 10, 2004
Quinta-feira, 9 de setembro, no início da noite, recebi a notícia de que Humberto morreu.
Humberto comandava uma van que, nas madrugadas ou às 12h, nos colocava em linha direta com Londrina ou com o Paraná ou com o mundo, dependendo da importância da notícia ou da Christina Matos, a nossa chefe.
Humberto subiu num poste, tomou um choque, caiu, se machucou e morreu. Bateu com a cabeça no chão e, segundo os médicos, não resistiu.
Humberto morreu no mesmo dia em que Edval , outro talento, soube que seria pai.
Que me desculpe o Edval, mas Humberto foi a principal notícia do dia. A morte fez ciranda com a surpresa e pegou todo mundo de.
Não que uma nova vida não seja boa nova.
Mas a ida do Humberto nos derrotou. Uma derrota absurda, que transforma o cotidiano em choque elétrico. Uma derrota estúpida, que transforma o homem de uma tarde em capítulo final.
Humberto espantava pombas no calçadão. Arrumava minhas gravatas. Me alertava sobre o tempo de todas as coisas e sobre o tempo de todas as notícias.
Humberto se irritava quando o repórter mexia no espelho da van pra se arrumar. Humberto era original. E, clichê dos clichês, Humberto não precisava de elogios. Alceu Nascimento diria:
-Humberto faz o seu. E pronto!
Ontem, trabalhando menos que ele, arrisquei um trote. Avistei Humberto na Concha Acústica sem um cinegrafista para a passagem de bloco.
-Onde está o Rubão? perguntei.
-Chegou aqui e sumiu!
-Chama o cara, não tá vendo o incêndio no Centro Comercial, Humberto?
-Incêndio?
-É!! Filma aí!!
Enquanto Humberto procurava o incêndio, eu e Alceu nos aproximamos. Desmentimos o trote. E o alívio brotou de dentro de uma van.
Fizemos como todos os dias. Um trote, uma palhaçada, uma brincadeira. Deu certo.
Mas de agora em diante não dará mais. Nos próximos links, não teremos a compreensão delicada do Humberto. Nem a malandragem corriqueira do Alceu. Nem a alegria doce do Walter. Nem a coragem punk do Bonomini. Nem a filososfia de almanaque do Beraldi. Nem a disposição ranheta do Rubão.
De agora em diante, vai faltar, todos os dias, um sorriso perdido e flácido, que abandonou a van de uma hora pra outra.
Daqui a pouco, ao meio-dia, mais um link será armado, mais um sinal será afinado, mais uma passagem de bloco será vendida, mais uma besteira (ou notícia de última hora) será dita.
Mas o Humberto não estará lá. O Humberto se foi.
E se ele se foi, teremos, enfim, notícias frescas de um lugar.
De um lugar de onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, mandaremos notícias.
E a frase acima é mais um clichê. Quem dera fosse o clichê de uma Nova Vida...não é!
Salve Humberto! Juro que tomarei uma cerveja, acenderei uma vela e farei uma homenagem, qualquer uma, pra você.
Até daqui a pouco!!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
A morte é um grande despertar
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Humberto comandava uma van que, nas madrugadas ou às 12h, nos colocava em linha direta com Londrina ou com o Paraná ou com o mundo, dependendo da importância da notícia ou da Christina Matos, a nossa chefe.
Humberto subiu num poste, tomou um choque, caiu, se machucou e morreu. Bateu com a cabeça no chão e, segundo os médicos, não resistiu.
Humberto morreu no mesmo dia em que Edval , outro talento, soube que seria pai.
Que me desculpe o Edval, mas Humberto foi a principal notícia do dia. A morte fez ciranda com a surpresa e pegou todo mundo de.
Não que uma nova vida não seja boa nova.
Mas a ida do Humberto nos derrotou. Uma derrota absurda, que transforma o cotidiano em choque elétrico. Uma derrota estúpida, que transforma o homem de uma tarde em capítulo final.
Humberto espantava pombas no calçadão. Arrumava minhas gravatas. Me alertava sobre o tempo de todas as coisas e sobre o tempo de todas as notícias.
Humberto se irritava quando o repórter mexia no espelho da van pra se arrumar. Humberto era original. E, clichê dos clichês, Humberto não precisava de elogios. Alceu Nascimento diria:
-Humberto faz o seu. E pronto!
Ontem, trabalhando menos que ele, arrisquei um trote. Avistei Humberto na Concha Acústica sem um cinegrafista para a passagem de bloco.
-Onde está o Rubão? perguntei.
-Chegou aqui e sumiu!
-Chama o cara, não tá vendo o incêndio no Centro Comercial, Humberto?
-Incêndio?
-É!! Filma aí!!
Enquanto Humberto procurava o incêndio, eu e Alceu nos aproximamos. Desmentimos o trote. E o alívio brotou de dentro de uma van.
Fizemos como todos os dias. Um trote, uma palhaçada, uma brincadeira. Deu certo.
Mas de agora em diante não dará mais. Nos próximos links, não teremos a compreensão delicada do Humberto. Nem a malandragem corriqueira do Alceu. Nem a alegria doce do Walter. Nem a coragem punk do Bonomini. Nem a filososfia de almanaque do Beraldi. Nem a disposição ranheta do Rubão.
De agora em diante, vai faltar, todos os dias, um sorriso perdido e flácido, que abandonou a van de uma hora pra outra.
Daqui a pouco, ao meio-dia, mais um link será armado, mais um sinal será afinado, mais uma passagem de bloco será vendida, mais uma besteira (ou notícia de última hora) será dita.
Mas o Humberto não estará lá. O Humberto se foi.
E se ele se foi, teremos, enfim, notícias frescas de um lugar.
De um lugar de onde todos nós, mais cedo ou mais tarde, mandaremos notícias.
E a frase acima é mais um clichê. Quem dera fosse o clichê de uma Nova Vida...não é!
Salve Humberto! Juro que tomarei uma cerveja, acenderei uma vela e farei uma homenagem, qualquer uma, pra você.
Até daqui a pouco!!
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Rodrigues, o Nelson:
A morte é um grande despertar
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Erros e erros... e ponto!
September 09, 2004
Eu só sei errar e ponto.
na definição da música
quando escolho as palavras
se não não tomo água à tarde.
na primeira hora
no primeiro minuto
no primeiro segundo.
Eu só sei errar e ponto
digo “amém”
não rezo
não tenho fé
calo a boca
tolero a dor
vivo doente
Eu só sei errar e ponto
brinco de faz de conta
insisto em aprender errado
apanho da ciência exata
compro caro a ansiedade
abro mão da alegria
faço rifa da felicidade
Eu só sei errar e ponto
almoço correndo e fico com fome
sofro lentamente com o estômago rebelde
alimento uma gastrite constante
amo a angústia
corro atrás do drama
congelo a um passo da grande chance
Eu só sei errar e ponto
faço passeata passo a passo
protesto contra o nada
Articulo besteiras
vejo poucos filmes
não conheço o melhor diretor
e nem a mais linda atriz
Eu só sei errar e ponto
corro atrás de um minuto e meio
faço a pergunta fora de hora
torço para a edição capenga
Eu só sei errar. E ponto
Eu? Só sei errar?
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
O amor não deixa sobreviventes
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
na definição da música
quando escolho as palavras
se não não tomo água à tarde.
na primeira hora
no primeiro minuto
no primeiro segundo.
Eu só sei errar e ponto
digo “amém”
não rezo
não tenho fé
calo a boca
tolero a dor
vivo doente
Eu só sei errar e ponto
brinco de faz de conta
insisto em aprender errado
apanho da ciência exata
compro caro a ansiedade
abro mão da alegria
faço rifa da felicidade
Eu só sei errar e ponto
almoço correndo e fico com fome
sofro lentamente com o estômago rebelde
alimento uma gastrite constante
amo a angústia
corro atrás do drama
congelo a um passo da grande chance
Eu só sei errar e ponto
faço passeata passo a passo
protesto contra o nada
Articulo besteiras
vejo poucos filmes
não conheço o melhor diretor
e nem a mais linda atriz
Eu só sei errar e ponto
corro atrás de um minuto e meio
faço a pergunta fora de hora
torço para a edição capenga
Eu só sei errar. E ponto
Eu? Só sei errar?
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Rodrigues, o Nelson:
O amor não deixa sobreviventes
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Solidão: que bosta!
September 06, 2004
Foi um fim de semana de trabalho e ao mesmo tempo de solidão. E há muito tempo eu não sentia tanto a falta de alguém que me ligasse pra dizer:
-Ei, como você está? Vamos ao Zerão no fim da tarde? Quando sair do plantão, me liga!
Ninguém disse isso. Ninguém!! E a impressão, catastrófica, é de que ninguém dirá tão cedo.
Estou com medo!
Estou com medo de não ter mais ninguém pra passear. Estou com medo de depender do telefone que não toca. Estou com medo de continuar sendo o segundo, terceiro, quarto da lista.
Felina viajou, Paulo sumiu, Flávia Renata não ligou, Pafu não deu notícia.
Só me restou o plantão e a preocupação. Me restou o receio de que, de repente, todos resolvam acampar no meio do mato e me abandonem.
Que fiquem todos na cidade. E me salvem da solidão.
Eu imploro!
PS: Me chamaram para um churrasco na casa de Fernando Araújo. Mas o evento era sábado e meu plantão era domingo de manhã. Aí, preferi a Delta Vídeo. Mas já vou adiantando: deveria ter ido ao “churra”. Semana que vem tô de folga. E ninguém me segura. Ninguém!
.....xxxxx.....
Rodrigues, o Nelson:
Normalmente, cada um de nós é um solitário e um incomunicável. O sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura.
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
-Ei, como você está? Vamos ao Zerão no fim da tarde? Quando sair do plantão, me liga!
Ninguém disse isso. Ninguém!! E a impressão, catastrófica, é de que ninguém dirá tão cedo.
Estou com medo!
Estou com medo de não ter mais ninguém pra passear. Estou com medo de depender do telefone que não toca. Estou com medo de continuar sendo o segundo, terceiro, quarto da lista.
Felina viajou, Paulo sumiu, Flávia Renata não ligou, Pafu não deu notícia.
Só me restou o plantão e a preocupação. Me restou o receio de que, de repente, todos resolvam acampar no meio do mato e me abandonem.
Que fiquem todos na cidade. E me salvem da solidão.
Eu imploro!
PS: Me chamaram para um churrasco na casa de Fernando Araújo. Mas o evento era sábado e meu plantão era domingo de manhã. Aí, preferi a Delta Vídeo. Mas já vou adiantando: deveria ter ido ao “churra”. Semana que vem tô de folga. E ninguém me segura. Ninguém!
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Rodrigues, o Nelson:
Normalmente, cada um de nós é um solitário e um incomunicável. O sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura.
(in: Flor de Obsessão org: Ruy Castro)
Porteiros e guardanapos
September 04, 2004
Muito já se falou sobre os porteiros. E também sobre guardanapos. Para mim, todos os porteiros deveriam se chamar Honorato.
Lucio Flávio Moura sustenta que todos os porteiros são santistas.
Mas é preciso contar uma história sobre o porteiro do prédio onde moro. O porteiro do prédio onde moro atende pelo nome de João. João não é Honorato.
João me pediu as chaves do apartamento pois poderia haver um vazamento de gás. “Ajuda especializada”, disse. Não deixei as chaves. Não precisava do gás.
Mas o João deu um jeito. Preste atenção.
Eis que na sexta-feira retrasada, com pressa, surpreendi João, o porteiro. Saí da emissora às 12h. Almocei às 12h40. Cheguei em casa às 13h. Correria total, precisava das minhas malas para ir ao aeroporto. O plano era Curitiba. O vôo era às 15h.
Mas às 13h, ainda em Londrina, abri a porta do apartamento. E, verdade inapelável, João estava lá!
João abriu a porta do meu apartamento com ajuda de um chaveiro. Sob o pretexto da preocupação com o vazamento, ordenou o estupro da fechadura. Mas João fez mais.
Os homens do gás foram embora e ele ficou. Dentro do apartamento, folgado no meu sofá azul!!! Lá estava João que passou a ser Honorato. E com ele, ninguém menos que uma mulher. Uma mulher feia. E com a mulher, uma lata de Brahma. E sob a lata, um guardanapo.
João, a mulher feia, a Brahma e o guardanapo. Estavam todos no meu apartamento sem a minha permissão.
Espantado, não disse um “A”. Fui ao meu quarto, guardei minhas camisas, administrei a invasão de privacidade. Covarde, não peitei João. Omisso, não fiz perguntas. Apressado, afinei.
João, que não é condômino, atropelou o regimento. Passou por cima do direito privado. E quando o vi ali, diante de meus olhos, sobre o meu sofá azul, com a “sobrinha” segurando a lata, e sob a lata o guardanapo, tive a nítida impressão de que o porteiro de meu prédio tinha o propósito de comer a mulher feia ali, na minha sala também azul.
“É minha sobrinha, passou mal e veio pra cá, tadinha!”. Esta foi a frase de João me supondo idiota.
E sou mesmo. Não tomei providências. Não chamei o síndico. Não fiz gritaria. Não corri distribuindo rabos de arraia no atacado.
Viajei. Contei o caso para Silvia e amigos na capital. Eles indignaram.
Voltei para Londrina. Contei o caso para Briguet e Preto. Surpresa, gargalhadas e indignação.
Por isso, atrasado, resolvi fazer algo diante do ocorrido. Só não sei ainda qual atitude tomar.
Por enquanto, só veio a crônica. O próximo passo talvez seja o advogado.
Um guardanapo, por favor!
Isso tudo é a mais pura expressão da verdade. E dou fé.
BRodrigues, o Nelson:
O ódio é, sabemos, muito mais voluptuoso do que o amor
Lucio Flávio Moura sustenta que todos os porteiros são santistas.
Mas é preciso contar uma história sobre o porteiro do prédio onde moro. O porteiro do prédio onde moro atende pelo nome de João. João não é Honorato.
João me pediu as chaves do apartamento pois poderia haver um vazamento de gás. “Ajuda especializada”, disse. Não deixei as chaves. Não precisava do gás.
Mas o João deu um jeito. Preste atenção.
Eis que na sexta-feira retrasada, com pressa, surpreendi João, o porteiro. Saí da emissora às 12h. Almocei às 12h40. Cheguei em casa às 13h. Correria total, precisava das minhas malas para ir ao aeroporto. O plano era Curitiba. O vôo era às 15h.
Mas às 13h, ainda em Londrina, abri a porta do apartamento. E, verdade inapelável, João estava lá!
João abriu a porta do meu apartamento com ajuda de um chaveiro. Sob o pretexto da preocupação com o vazamento, ordenou o estupro da fechadura. Mas João fez mais.
Os homens do gás foram embora e ele ficou. Dentro do apartamento, folgado no meu sofá azul!!! Lá estava João que passou a ser Honorato. E com ele, ninguém menos que uma mulher. Uma mulher feia. E com a mulher, uma lata de Brahma. E sob a lata, um guardanapo.
João, a mulher feia, a Brahma e o guardanapo. Estavam todos no meu apartamento sem a minha permissão.
Espantado, não disse um “A”. Fui ao meu quarto, guardei minhas camisas, administrei a invasão de privacidade. Covarde, não peitei João. Omisso, não fiz perguntas. Apressado, afinei.
João, que não é condômino, atropelou o regimento. Passou por cima do direito privado. E quando o vi ali, diante de meus olhos, sobre o meu sofá azul, com a “sobrinha” segurando a lata, e sob a lata o guardanapo, tive a nítida impressão de que o porteiro de meu prédio tinha o propósito de comer a mulher feia ali, na minha sala também azul.
“É minha sobrinha, passou mal e veio pra cá, tadinha!”. Esta foi a frase de João me supondo idiota.
E sou mesmo. Não tomei providências. Não chamei o síndico. Não fiz gritaria. Não corri distribuindo rabos de arraia no atacado.
Viajei. Contei o caso para Silvia e amigos na capital. Eles indignaram.
Voltei para Londrina. Contei o caso para Briguet e Preto. Surpresa, gargalhadas e indignação.
Por isso, atrasado, resolvi fazer algo diante do ocorrido. Só não sei ainda qual atitude tomar.
Por enquanto, só veio a crônica. O próximo passo talvez seja o advogado.
Um guardanapo, por favor!
Isso tudo é a mais pura expressão da verdade. E dou fé.
BRodrigues, o Nelson:
O ódio é, sabemos, muito mais voluptuoso do que o amor