O dia em que dormi em pé...
No fim da escadaria, na sobreloja daquela revenda de peças, estava ela: a mocinha vendendo entradas para a festa na República do curso de Moda. A festa seria ali. Aliás, já estava sendo.
Convite de Pafu. Recusar como?
Entramos. Havia tiras de tecidos penduradas por todos os cantos. Pouquíssima luz. Muitíssimo barulho. Nenhuma preocupação com a ressaca. E estava frio.
Cabelos de todas as cores. Blusas de todos os modelos. Calças de todos os tamanhos. Saltos de todas as alturas. Mulheres bonitas e feias. Homens bonitos e meu amigo Fabinho, professor de inglês. Estávamos numa festa.
Todo mundo dançava. Inclusive o Fabinho, mesmo sem saber.
Encontrei a Juliana e o marido. Encontrei colegas de faculdade. Encontrei o Pafu (eu o havia perdido). Encontrei uma luz acesa. A única.
O tempo passava. E as cervejas apareciam de todos os lados. Geladas, quentes, mornas. Do bar da esquerda, do bar da direita, do bar de centro-esquerda.
E esta mistura entre mornas e frias, essa indefinição política e ideológica já desafiavam a minha resistência física. Foi extamente por isso, só por isso que...
De repente...
(esta crônica será interompida por uma hora ou duas e por um absurdo!!)
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...sou tomado por um susto!! Névoa nos olhos. Mãos para trás e não encontro a cabeceira da cama. Olho para baixo e meus pés pisam o chão. Engulo seco. Uma ressaca antes do fim da noite. A cabeça explode em dor. Tento levantar mas não consigo. Tento levantar, mas não é preciso...
Dormi em pé!
Não me lembro a que horas foi. Nem de ter escorado na parede fria. Mas escorei. E ali dormi. Não fui impedido pelo barulho. Dormi em pé. Enquanto dormi, todos se foram.
Aliás, todos não. Ainda estavam lá quatro heróis, de cabelos vermelhos. Ou será que eram verdes?
Nenhum deles me conhecia. E o pior: nenhum deles era o Pafu!! Procurei sem muito critério. Mas Pafu não era um dos quatro.
Depois do susto, a atitude. Corri para a escadaria do início desta história. Nenhum movimento. A bilheteira também já havia partido.
Desci as escadas. Não foi degrau por degrau. As chaves do carro, intocadas no meu bolso esquerdo. Mas e o carro? Estava longe. Duas quadras dali, talvez? Corri. O carro do Pafu também já não ocupava a vaga logo adiante. Entrei. Parti.
Não me lembro que caminho percorri. Duque de Caxias, Brasil, Celso Garcia, Leste-oeste. Tantas alternativas...
Cheguei em casa. Tirei as roupas. Uma neosaldina. Um exame de consciência...uma consciência de exame...um cigarro...janela aberta...sino de igreja...olhos ardendo...
Dormi. Agora sim
Dormi como deve ter dormido a maioria dos convidados daquela festa. Na casa de amigos. Na esquina da Rua Uruguai. Na casa do Chicó. No banco de trás. Na varanda. No jardim.
Em casa, dormi como deveriam dormir todos. Dormi deitado.
Afinal, é sempre bom poder alcançar a cabeceira da cama.
P.S: Esta crônica começou num churrasco na casa de Lúcio Horta. Apesar do frio intenso, estava tudo extremamente agradável. De lá, não deveria ter saído. Havia cervejas. Havia amigos. E eles me deitariam logo que eu pegasse no sono.
Publicado em 15 de outubro de 2003 às 22:51 por mrocha
quando vc publica ou edita um post, há uma opção “desativar comentários” logo abaixo do campo onde vc escreve o post. o padrão é “não”, mas se vc marcar “sim”, é claro que o post ficará fechado para comments. foi o que aconteceu com este aqui, mas agora já ativei os comentários pra vc. preste mais atenção na próxima vez. e que sejam vezes mais freqüentes e periódicas também.
certo de ter solucionado sua dúvida, esfacelo-me aqui.
um abraço,